Artigos Técnicos

Primeiro relato de Pseudocercospora actinidiae na cultura do quivi no Brasil

Produtores precisam estar informados e atualizados sobre a mancha fuligem do quivi para que possam detectar qualquer sintoma suspeito e com isso se consiga uma diagnose precoce


Sintomas da mancha da fuligem em folhas de quivi na face abaxial (A, B, C) e adaxial (D, E) causado por Pseudocercospora actinidiae.

No dia 08 de março de 2019, extensionistas da Epagri encaminharam a clínica fitopatológica da Estação Experimental de São Joaquim - Epagri, folhas de quivi do cultivar Hayward com manchas aveludadas de coloração negra na parte abaxial. Estas folhas sintomáticas eram provenientes de um pomar localizado no município de Bom Retiro, no Estado de Santa Catarina (27º45'51"S, 49º43'44"W). Após análises laboratoriais básicas verificou-se que os sintomas característicos desta doença são semelhantes a uma praga quarentenária ausente no Brasil denominada "Sooty spot of kiwifruit" (tradução literal mancha fuligem do quivi). Após esta constatação, pesquisadores da Epagri imediatamente notificaram o Serviço de Fiscalização de Insumos e Sanidade Vegetal da SFA/SC do MAPA, bem como a CIDASC sobre a suspeita. Considerado a importância da doença a Epagri em parceria com o laboratório Agronômica realizaram análises mais refinadas para identificação do isolado fúngico. Após análises morfológicas e moleculares foi detectado Pseudocercospora actinidiae como o agente causal da mancha de fuligem do quivi no Brasil. Até onde sabemos, este é o primeiro relato de P. actinidiae causando mancha fuligem do quivi fora do continente asiático.

A mancha fuligem pode ser causada pelo teleomorfo do fungo Leptosphaeria sp., ou anamorfo P. actinidiae. Na fase primária o patógeno sobrevive em micélios e pseudotécios durante o inverno nas vinhas doentes e folhas caídas no solo. Na primavera ascósporos são ejetados dos pseudotécios de Leptosphaeria sp., e quando depositados sobre folhas germinam e penetram nos tecidos do quivi, e posteriormente apresentam os sintomas característicos da doença. Nas folhas com manchas aveludadas de coloração negra, predomina a fase secundaria do patógeno, onde se tem a presença dos conidióforos que produzem os conídios de P. actinidiae que podem ser dispersados pelo vento e pela chuva e são responsáveis pelos surtos epidêmicos nos pomares em produção. Altas temperaturas e chuvas podem acelerar a infecção, mas a ocorrência e dispersão são dependentes da resistência de cada cultivar.

Atualmente é difícil prever como será o comportamento da doença em relação a epidemiologia e adaptação ao ambiente encontrado no Brasil. Além disso, não são conhecidos os níveis de susceptibilidade dos principais cultivares produzidos no país, já que o fungo foi detectado nos cultivares Hayward e Rainbow Red, pouquíssimos cultivados no Brasil. No entanto, no sul do país elevados índices de precipitações e temperaturas amenas são registrados ao longo do ano, favorecendo o desenvolvimento de doenças fúngicas. A doença pode provocar forte desfolha, comprometendo a produção no ano que ocorre, e no seguinte, devido ao comprometimento de acumulo de reservas na planta. Além disso, em condições de alta incidência pode haver infecção de frutos, com a presença de pequenos pontos aveludados, de cor cinza que expandem para manchas maiores. Assim é provável que a mancha fuligem possa trazer impactos para a cultura do quivi, caso ocorra disseminação de P. actinidiae no país.

Nos países que a doença é presente (China e Japão), o manejo recomendado é aplicação de calda sulfocálcica antes da brotação, a remoção das vinhas sintomáticas e aplicação de fungicidas a cada 20 dias durante o ciclo. Os principais grupos químicos utilizados são os sítio-específicos: difenoconazol, piraclostrobina, tiofanato metílico e trifloxistrobina; e multisítios: calda sulfocalcica e clorotalonil. No Brasil, como o patógeno foi detectado oficialmente em somente um pomar, a principal medida a ser tomada é a erradicação das plantas sintomáticas. Destacamos que no pomar onde a mancha fuligem do quivi foi encontrada medidas legais de contenção e erradicação vem sendo adotadas pelo Mapa para evitar que a doença se dissemine para outros pomares no Brasil. No entanto, é importante que técnicos e produtores se mantenham informados e atualizados sobre a mancha fuligem do quivi para que possam detectar qualquer sintoma suspeito e com isso se consiga uma diagnose precoce, aumentando assim a probabilidade de erradicação da doença, caso haja alguma nova introdução. *Leonardo Araujo1; Felipe Augusto Moretti Ferreira Pinto1; Camila Cristina Lage de Andrade2; Larissa Bitencourt Gomes2; Tatiana Mituti2; Valmir Duarte2 - 1Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI), Santa Catarina, Brasil - 2 Agronômica Laboratório de Diagnóstico Fitossanitário e Consultoria, Porto Alegre, RS, Brasil

Mais detalhes em: Araujo, L. et al. (2021) Pseudocercospora actinidiae causes sooty spot disease on kiwifruit in Santa Catarina, Brazil. Australasian Plant Disease Notes, 16:22. In: https://doi.org/10.1007/s13314-021-00436-w

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