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Nova seleção avançada de macieira F2P101

A mesma foi originária do cruzamento entre a Gala e uma seleção de macieira sem uso comercial (D1R98T188), sendo selecionada e desenvolvida na E.E. de São Joaquim (EESJ)


Apesar do Brasil estar entre os maiores produtores mundiais de maçã, praticamente toda a produção está restrita a duas únicas variedades e seus clones, o que faz com que haja instabilidade às condições climáticas, biológicas e também econômicas. Há muitos anos, a Epagri procura desenvolver cultivares que atendam às exigências das principais regiões produtoras do estado de Santa Catarina. Dentre as seleções avançadas desenvolvidas, a F2P101 deverá ser lançada como cultivar nos próximos anos. A mesma foi originária do cruzamento entre a Gala e uma seleção de macieira sem uso comercial (D1R98T188), sendo selecionada e desenvolvida na Estação Experimental de São Joaquim (EESJ).

Dentre as principais características, a F2P101 apresenta resistência a uma das principais doenças da cultura, a sarna da macieira (Venturia inaequalis), proporcionando redução dos custos de produção devido ao menor número de aplicações, evitando a contaminação dos produtores e reduzindo o risco para o meio ambiente. Ao longo dos anos de estudos, observou-se uma redução de até 50% no número de pulverizações nas áreas experimentais da F2P101 em comparação às demais áreas experimentais conduzidas no sistema convencional de produção na EESJ. O período de colheita da F2P101, que normalmente ocorre na primeira quinzena de março, ocorre após a 'Gala' e antes da 'Fuji', sendo uma opção para escalonar a colheita. Atualmente, a F2P101 é classificada como de média exigência em frio hibernal e floresce cerca de sete dias mais cedo em relação às cultivares Gala e Fuji, normalmente coincidindo com cultivares de florescimento mais precoce como a 'Monalisa', a 'Kinkas' e a 'Joaquina'.

Atualmente, existem duas áreas experimentais dessa seleção avançada, utilizando dois porta-enxertos: Marubakaido (Maruba) e Maruba com filtro de M-9 (MB/M.9). Além de estar trabalhando no registro da seleção como cultivar, a Epagri está conduzindo diversos estudos para obter as informações necessárias sobre as características das plantas e dos frutos, bem como sobre as principais estratégias de manejo do cultivar, tanto em pré quanto em pós-colheita.

O potencial produtivo da F2P101 é elevado, com baixa alternância de produção ao longo dos anos. As produtividades estimadas na safra de 2019/2020 foram de 59,2 e 71,81 ton/ha-1 nas áreas conduzidas com Maruba e MB/M.9, respectivamente. Já para safra 2020/2021, as produtividades foram mais elevadas, chegando a 95 ton/ha-1 na área conduzida com o porta-enxerto Maruba e 93 tom/ha-1 na área com plantas enxertadas sobre o MB/M.9.

Nos anos de 2020 e 2021, os frutos de ambas as áreas experimentais foram classificados na EESJ em relação à cor e ao calibre médio de frutos. Levando em consideração a coloração e considerando a média dos dois anos avaliados, observou-se que 50% e 66% dos frutos se enquadrariam na categoria extra (>75% de cor vermelha) para os porta-enxetos Maruba e MB/M.9, respectivamente. Ambos os porta-enxertos apresentaram ainda menos de 20% dos frutos classificados como Cat 2 ou inferior (<50% de cor vermelha), de acordo com a IN05 do Ministério da Agricultura (BRASIL, 2006).

Os frutos da F2P101 apresentam formato levemente alongado, com excelente calibre. Para a safra 2020/2021, o peso médio de frutos chegou a 154 e 167, respectivamente, nas plantas enxertadas sobre o Maruba e o MB/M.9. Em relação à classificação para essa mesma safra, mais de 50% dos frutos obtiveram calibre médio acima de 110 (>157 g), para ambos os porta-enxertos. Já para os frutos pequenos, menos de 6% dos frutos de plantas enxertas sobre o Maruba e menos de 2% de plantas enxertadas sobre o MB/M.9 apresentaram calibre abaixo do 198 (<96 g). Esses resultados indicam que o cultivar apresenta baixo percentual de frutos classificados como indústria, tanto pela coloração quanto pelo calibre.

A F2P101 apresenta bom potencial de conservação em pós-colheita, com capacidade de armazenamento superior à 'Gala', sobretudo pela melhor manutenção da firmeza de polpa e da acidez na câmara fria e durante o tempo de prateleira. Apesar de ter mostrado baixa suscetibilidade às principais podridões e distúrbios fisiológicos que ocorrem durante a pós-colheita em experimentos preliminares, novas pesquisas estão sendo conduzidas para fornecer as melhores estratégias de manejo do cultivar e evitar a ocorrência de danos nos frutos.

Assim como os demais cultivares comerciais, para atingir o máximo potencial de produtividade e qualidade de frutos, a F2P101 depende de um manejo bem conduzido do pomar. Atenção especial deve ser dada ao raleio, para obtenção de frutos de melhor calibre, bem como ao manejo de adubação na área, de maneira a proporcionar teores minerais adequados ao fruto e, consequentemente, evitar a ocorrência de distúrbios fisiológicos e proporcionar maior capacidade de armazenamento.

Mariuccia Schlichting De Martin1, Cristiano João Arioli1, Leonardo Araujo1, Felipe Augusto Moretti Ferreira Pinto1

Pesquisador da Epagri - Estação Experimental de São Joaquim, e-mail: [email protected]

 

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