O controle do psilídeo representa um dos maiores desafios da citricultura brasileira. O inseto é o principal vetor do greening, doença que não tem cura e compromete a produtividade dos pomares, e seu manejo envolve fatores biológicos, ambientais, econômicos e sociais. Para enfrentar esse problema, o Fundecitrus pesquisa desde 2015 o uso do caulim como barreira física contra o inseto, com resultados que apontam reduções expressivas tanto na população do psilídeo quanto na incidência da doença.
O caulim é um mineral natural composto principalmente por silicato de alumínio. Quando pulverizado sobre as folhas dos citros, forma uma película branca que altera a aparência visual da planta. E é exatamente essa mudança que interfere no comportamento do inseto.
?O psilídeo depende primariamente da visão para localizar as plantas para reprodução e alimentação. Ao alterar a aparência da planta, o caulim confunde o inseto e interfere diretamente no seu comportamento de selecionar o hospedeiro. Se ele não consegue pousar para se alimentar, também não é capaz de transferir a bactéria causadora da doença para a planta sadia nem depositar seus ovos?. É o que explica Marcelo Miranda, pesquisador do Fundecitrus e coordenador da pesquisa.
Citros com psilídeo
Experimentos em pomares comerciais confirmam eficiência do caulim - A partir de 2019, com apoio da Fapesp, o Fundecitrus conduziu experimentos de grande escala nas bordas de três pomares comerciais de laranjeira-doce no interior de São Paulo. Os resultados variaram conforme o tipo de pomar e o protocolo de aplicação, mas confirmaram o potencial do mineral como ferramenta complementar aos inseticidas químicos.
No primeiro experimento, em um pomar em formação na região de Casa Branca, a combinação de caulim a 2% a cada 15 dias com inseticidas a cada 10 dias resultou em redução de 59% na população de psilídeos e 52% na incidência de greening, em comparação com a área tratada apenas com inseticidas.
No segundo, em um pomar em produção na região de Borborema, pulverizações mensais de caulim a 2% no primeiro semestre e quinzenais no segundo, associadas a inseticidas a cada 10 dias, reduziram em 25% a infestação do inseto e 40% a incidência da doença.
O terceiro experimento, em um pomar recém-implantado em Pirajuí, revelou uma condição importante: a frequência de aplicação faz diferença. O uso quinzenal de caulim apenas no segundo semestre dos dois primeiros anos não foi suficiente para reduzir a população do psilídeo nem a incidência de greening. Quando os pesquisadores passaram a aplicar o produto ao longo de todo o ano, a 1% no primeiro semestre e 1,5% no segundo, os resultados melhoraram significativamente: após três anos, a infestação caiu 48% e a incidência de greening, 46%.
?Esses experimentos em pomares comerciais permitiram acompanhar de perto a evolução do psilídeo e da doença em diferentes cenários. Contribuindo para gerar informações práticas ao citricultor?, diz Miranda.
Nem todo caulim é igual: como escolher o produto certo - Estudos mais recentes do Fundecitrus, com apoio da Givaudan Foundation, avaliaram diferentes produtos à base de caulim e compostos semelhantes, comparando pH, cobertura foliar, resistência à chuva e repelência ao psilídeo. Os resultados mostraram diferenças relevantes entre os produtos disponíveis no mercado.
Produtos à base de silicato de alumínio, em geral, não alteram significativamente o pH da calda de pulverização. O que é desejável, já que variações de pH podem comprometer a eficácia dos inseticidas aplicados na mesma mistura. Já o hidróxido de cálcio, o hidróxido de magnésio e o carbonato de cálcio elevam o pH da calda, o que pode ser um problema quando há combinação com outros defensivos.
?É importante que os produtores confiram uma tonalidade visualmente mais branca à superfície da planta, apresentem boa cobertura foliar e resistência à lavagem pela chuva. Produtos com essas características reduzem de forma mais significativa a quantidade de psilídeos na planta?, afirma Wellington Ivo Eduardo, pesquisador do Fundecitrus.
Ao escolher um produto, o citricultor deve priorizar formulações específicas para pulverizações agrícolas, com granulometria fina (igual ou inferior a 2 micrômetros), fácil diluição em água, ausência de substâncias tóxicas, baixo poder abrasivo. E sobretudo capacidade de deixar a superfície foliar com coloração esbranquiçada.
Como aplicar o caulim corretamente - A concentração recomendada é de 3% na pulverização inicial e 2% nas aplicações de manutenção, podendo variar conforme a indicação do fabricante. A sequência de diluição, porém, exige atenção.
?Produtos à base de caulim e minerais afins devem ser diluídos primeiro, adicionados lentamente ao tanque ou ao pré-misturador, sempre com agitação constante. Isso reduz o risco de o produto decantar ou permanecer na superfície da calda?, orienta Eduardo.
Quando houver aplicação conjunta com outros produtos, inseticidas, acaricidas ou fungicidas, o citricultor deve seguir a ordem de mistura. E priorizando os produtos que exigem maior tempo de agitação, seguidos dos de diluição mais rápida.
Caulim também promete contra o cancro cítrico - Além do psilídeo e do greening, o Fundecitrus investiga, desde 2021, o desempenho do caulim no controle do cancro cítrico. Essa pesquisa conta também com apoio da Givaudan Foundation.
Em experimentos de casa de vegetação, o caulim (produto Surround WP) reduziu a severidade da doença em 80%, resultado semelhante ao do cobre, principal defensivo utilizado hoje para o cancro. O mecanismo de ação envolve dois efeitos combinados. A camada física sobre a folha atua como barreira contra a bactéria causadora da doença. E o caulim ainda reduziu em até 50% o tempo de secagem da folha após simulação de chuva, diminuindo o período favorável à infecção.
Em pomares comerciais de laranja Natal, os resultados foram menos expressivos, mas ainda relevantes. Aplicado isoladamente a cada 21 dias, o caulim reduziu em até 44% a incidência de folhas com cancro cítrico. Alternado com cobre, o controle subiu para até 75% em relação às plantas não tratadas. Um resultado semelhante ao do tratamento exclusivo com cobre. Nos frutos, a combinação dos dois produtos atingiu redução de até 37%.
Para o pesquisador Franklin Behlau, do Fundecitrus, o uso do caulim no manejo do psilídeo pode trazer um benefício adicional indireto: reduzir a quantidade total de cobre nos pomares.
?O caulim pode ajudar a aumentar o intervalo entre aplicações de cobre para cancro cítrico, principalmente em áreas com menor favorabilidade da doença. Isso representa um avanço importante do ponto de vista ambiental, pois ajudaria a reduzir o acúmulo desse metal no solo e o risco de seleção de bactérias resistentes?, afirma Behlau.
Os pesquisadores são enfáticos. O caulim não substitui o cobre, mas pode atuar como aliado em estratégias integradas de manejo, conciliando eficiência agronômica e sustentabilidade ambiental. *AgroEmCampo/Henrique Rodarte ? 26/04/2026.