Produtores de goiaba no RS estão descartando toneladas da fruta porque as empresas compradoras simplesmente pararam de aceitar a produção mesmo com uma das melhores safras

A goiaba é uma fruta perecível que amadurece rapidamente após a colheita e não pode esperar semanas na propriedade rural até que a indústria tenha espaço para recebê-la

21/04/2026 12:28
Produtores de goiaba no RS estão descartando toneladas da fruta porque as empresas compradoras simplesmente pararam de aceitar a produção mesmo com uma das melhores safras

Produtores de goiaba no RS estão descartando toneladas da fruta porque as empresas compradoras simplesmente pararam de aceitar a produção mesmo com uma das melhores safras dos últimos anos e enquanto o consumidor paga cada vez mais caro - Produtores de goiaba no interior do Rio Grande do Sul estão jogando fora toneladas de fruta que cultivaram durante meses porque simplesmente não têm para quem vender. O cenário é paradoxal: a safra de goiaba é uma das melhores dos últimos anos na região, mas as empresas compradoras ficaram sobrecarregadas com o volume e passaram a restringir ou até suspender a aquisição da fruta. Sem estrutura adequada para armazenar e escoar toda a produção de goiaba, muitos produtores ficaram sem saída e o descarte se tornou a única opção, gerando prejuízo direto para famílias que dependem da fruta como principal fonte de renda. Os custos de produção permanecem, mas sem comercialização, a margem é zero.

O problema ficou visível após publicações nas redes sociais da produtora Simone Back e do marido, Sidnei Rauber, da comunidade de Arroio Feliz, em Feliz (RS). O casal relatou que a situação é resultado de uma sequência de dificuldades que começou em 2024, quando enchentes atingiram a região e causaram perdas significativas nas lavouras de goiaba, com deslizamentos de áreas e redução no número de plantas. Em 2025, a safra foi considerada mediana, e os produtores ainda enfrentam atrasos nos pagamentos pelas vendas anteriores. Agora, com a alta produção em toda a região, o excesso de oferta fez com que as empresas compradoras travassem, e a goiaba que deveria virar suco, doce ou polpa está apodrecendo no chão. 

Por que as empresas pararam de comprar a goiaba dos produtores gaúchos - A explicação é uma combinação de excesso de oferta localizado e capacidade limitada de processamento. Quando todos os produtores de uma região colhem goiaba ao mesmo tempo e em volumes acima da média, as indústrias que processam a fruta atingem o limite de absorção e não conseguem receber, armazenar e processar tudo que é oferecido. As fábricas de polpa, suco e doce operam com capacidade fixa de processamento, e quando a oferta de goiaba ultrapassa essa capacidade, alguém fica de fora.

O problema é agravado pela ausência de infraestrutura de armazenamento refrigerado na região produtora. A goiaba é uma fruta perecível que amadurece rapidamente após a colheita e não pode esperar semanas na propriedade rural até que a indústria tenha espaço para recebê-la. Sem câmaras frias acessíveis e sem alternativas de escoamento como feiras diretas ao consumidor ou exportação, os produtores de goiaba ficam reféns de um número limitado de compradores que ditam quando, quanto e a que preço vão comprar. 

O paradoxo entre o descarte da goiaba e o preço pago pelo consumidor - Segundo informações divulgada pelo portal Canal Rural, a situação mais difícil de aceitar para quem produz goiaba é saber que, enquanto toneladas da fruta apodrecem nas propriedades, o consumidor final paga cada vez mais caro por ela no supermercado. O preço da goiaba no varejo não caiu mesmo com a supersafra na região produtora, porque a cadeia de intermediação entre o produtor e a gôndola absorve margens que não se refletem no campo. O produtor não consegue vender por falta de comprador, mas o consumidor paga caro porque o varejo opera com preços que consideram custos de transporte, refrigeração, margem do atacadista e margem do varejista.

Esse descompasso é estrutural e afeta produtores de goiaba em todo o Brasil. Quem planta não tem poder de negociação sobre o preço e depende de poucos compradores que podem simplesmente parar de comprar quando lhes convém. O produtor que investiu em mudas, adubos, defensivos, mão de obra e irrigação durante todo o ciclo da goiaba não tem como devolver esses custos quando a fruta não é vendida. O resultado é margem zerada para quem produziu e lucro mantido para quem comercializa. 

Produtores de goiaba no RS descartam toneladas da fruta porque empresas pararam de comprar. Custos mantidos, margem zerada

As enchentes de 2024 que pioraram a situação dos produtores de goiaba - O cenário atual não surgiu do nada. Em 2024, enchentes devastadoras atingiram o Rio Grande do Sul e causaram perdas significativas nas lavouras de goiaba da região, com deslizamentos de terra que destruíram áreas produtivas e reduziram o número de plantas em muitas propriedades. Os produtores que sobreviveram às enchentes investiram no replantio e na recuperação das áreas danificadas, esperando que a safra seguinte compensasse os prejuízos.

A ironia é cruel. A safra de 2025 veio com qualidade e volume superiores ao esperado, mas em vez de representar a recuperação financeira que os produtores de goiaba precisavam, a boa colheita criou um excesso de oferta que as empresas compradoras não absorveram. Produtores que perderam tudo nas enchentes e se endividaram para recomeçar agora veem a goiaba que deveria pagar as dívidas sendo descartada no chão. Os atrasos nos pagamentos das vendas anteriores agravam o cenário financeiro e deixam muitas famílias em situação desesperadora. 

O que falta para que os produtores de goiaba não precisem descartar a fruta - A solução passa por infraestrutura, diversificação de mercado e política pública. Câmaras frias comunitárias ou cooperativas que permitam armazenar a goiaba por mais tempo dariam aos produtores a capacidade de esperar até que as indústrias tenham espaço para receber a fruta, evitando o descarte imediato que acontece quando a colheita e a capacidade de processamento não coincidem.

A diversificação de canais de venda também é essencial. Produtores de goiaba que dependem de uma ou duas empresas compradoras estão vulneráveis a exatamente o tipo de situação que aconteceu no Rio Grande do Sul: basta que essas empresas parem de comprar para que toda a produção fique sem destino. Feiras livres, venda direta ao consumidor, programas de aquisição de alimentos do governo e parcerias com restaurantes e padarias são alternativas que diluem o risco e garantem que a goiaba chegue a quem quer comprá-la em vez de apodrecer no campo. 

O impacto humano do descarte da goiaba no Rio Grande do Sul - Por trás das toneladas de goiaba descartadas existem famílias inteiras que vivem da fruta. Simone Back e Sidnei Rauber, que publicaram vídeos nas redes sociais mostrando o desperdício, representam centenas de produtores da comunidade de Arroio Feliz e da região de Feliz que enfrentam a mesma situação sem visibilidade midiática. Para essas famílias, a goiaba não é apenas um produto agrícola: é a fonte de renda que paga contas, sustenta filhos e mantém a propriedade funcionando.

O descarte de goiaba em plena safra é um desperdício que deveria indignar tanto quanto a fome que persiste no mesmo país. Enquanto produtores jogam fruta fora por falta de comprador, bancos de alimentos e programas sociais enfrentam escassez de doações, em uma desconexão entre oferta e demanda que tecnologia, logística e vontade política poderiam resolver. A goiaba que apodrece no chão do Rio Grande do Sul é a prova mais concreta de que produzir alimentos no Brasil ainda é um ato de coragem que nem sempre é recompensado. *Clickpetroleoega/Maria Heloisa Barbosa Borges - 19/04/2026.