Não há dúvida de que os chilenos são fanáticos por abacate. Isso é demonstrado pelos dados do Comitê Chileno do Abacate, que indicam que o consumo per capita em 2025 atingiu 8,9 quilos por pessoa por ano, superando os 8,6 quilos registrados no ano anterior, confirmando uma tendência de crescimento sustentado nos últimos anos.
Dessa forma, o Chile se posiciona como o segundo maior consumidor de abacates Hass do mundo, atrás apenas do México, consolidando um mercado interno que se destaca por sua maturidade e dinamismo.
Nesse contexto, a Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso (PUCV) lidera um estudo científico inovador com o objetivo de abordar um dos principais desafios da indústria do abacate: a mancha negra, uma desordem fisiológica que afeta a aparência da fruta e pode gerar perdas econômicas significativas.
A pesquisa é liderada por Romina Pedreschi, professora da Escola de Agronomia e membro do corpo docente do programa de doutorado em Ciências Agroalimentares, que disse ao Portalfruticola.com que a "mancha preta" se manifesta como manchas pretas na casca dos abacates Hass após períodos prolongados de armazenamento em refrigeração e em temperatura ambiente.
Pedreschi explicou que se trata de uma questão puramente estética, já que a polpa não é afetada em sua qualidade nutricional ou sensorial. "Seu impacto comercial é significativo, pois os consumidores associam essas imperfeições à fruta estragada, o que leva a rejeições e prejuízos para exportadores e varejistas", acrescentou.
Ele também observou que os consumidores tendem a rejeitar frutas com imperfeições, mesmo que estejam em perfeitas condições internas.
O pesquisador indicou que, de acordo com dados coletados durante as épocas críticas, esse problema afetou entre 10% e 20% das frutas exportadas, o que demonstra a magnitude do desafio para o setor.
Um problema em busca de solução - Pesquisas conduzidas pela equipe do Laboratório de Biologia Agroalimentar da PUCV estabeleceram que a origem da mancha negra não se limita à fase pós-colheita, mas é influenciada por fatores que atuam desde a pré-colheita, como condições agroclimáticas, estágio de maturação da fruta e diferentes tipos de estresse.
Em nível fisiológico, o distúrbio está associado a um processo de estresse oxidativo. Isso ocorre quando a fruta gera uma quantidade excessiva de radicais livres que sobrecarregam sua capacidade natural de defesa.
Como resultado, ocorrem danos nas membranas celulares, fazendo com que enzimas e compostos que normalmente estão separados entrem em contato, gerando o escurecimento visível na casca.
O papel fundamental da atmosfera controlada - O professor explicou que um dos avanços mais relevantes foi a identificação do efeito positivo da atmosfera controlada na redução da mancha negra.
?Essa tecnologia, utilizada no transporte de frutas para mercados distantes, consiste em modificar a composição dos gases ? diminuindo o oxigênio e aumentando o dióxido de carbono ? para retardar o metabolismo da fruta?, acrescentou.
No entanto, embora sua eficácia tenha sido comprovada, ainda existem dúvidas sobre como ele age em nível fisiológico e molecular.
?Sabemos que uma atmosfera controlada reduz a atividade metabólica e a geração de espécies reativas de oxigênio, o que protege as células. Também observamos que ela influencia a regulação hormonal da fruta, mas precisamos entender esses processos com mais precisão?, observou ele.
Uma questão crítica identificada pela equipe é que, na prática, a fruta não permanece nessas condições o tempo todo. Durante a logística de exportação, há períodos em que os abacates são mantidos em ar ambiente, tanto antes do carregamento quanto na chegada ao destino, o que aumenta sua suscetibilidade ao desenvolvimento da doença.
Pesquisa a serviço da indústria - O projeto regular Fondecyt nº 1260283 terá duração de quatro anos e visa identificar biomarcadores precoces que permitam prever, desde a época da colheita, quais lotes de frutas têm maior probabilidade de desenvolver mancha negra.
Para isso, os pesquisadores analisarão o ?lipoma? da casca ? ou seja, o conjunto de lipídios presentes ? e outros metabólitos que possam servir como indicadores do estado fisiológico da fruta.
?Se pudermos ter previsões antecipadas, a indústria poderá tomar decisões informadas, como definir para quais mercados enviar a fruta ou ajustar os tempos e condições de armazenamento?, explicou o acadêmico.
O estudo envolve a análise de milhares de frutas de diferentes zonas agroclimáticas do país para representar com precisão a diversidade produtiva do Chile. Além disso, serão avaliadas diversas combinações de armazenamento que simulam as condições reais de exportação.
Utilização de atmosfera controlada
Além disso, a equipe explorará estratégias complementares, como a aplicação de compostos ou reguladores hormonais que possam ajudar a mitigar o desenvolvimento do distúrbio em estágios críticos da cadeia logística.
Além de melhorar a competitividade das exportações do país sul-americano, a pesquisa busca contribuir para a sustentabilidade do sistema alimentar, reduzindo as perdas e o desperdício de alimentos ao longo de toda a cadeia de suprimentos.
?Nosso compromisso é que os resultados não apenas permaneçam em publicações científicas, mas que se traduzam em ferramentas úteis para o setor?, concluiu Pedreschi. *Matéria do PortalFruticola - Macarena Bravo/Foto cortesia de Romina Pedreschi.