Artigos Técnicos

Polinização natural como estratégia para reduzir custos na produção do Maracujazeiro-azedo

Polinização deve ocorrer de forma cruzada


Diferentes espécies de maracujazeiro compõem o grupo de plantas denominado angiospermas, ou seja, aquelas que apresentam, entre outras características, sementes protegidas por fruto, que se forma a partir da união da célula sexual masculina (o pólen) com a feminina (o óvulo). O pólen existente na estrutura masculina, chamada antera, é depositado na estrutura feminina, o estigma, e a partir dessa transferência tem início um processo que, se bem-sucedido, resultará na fecundação da flor e formação do fruto. Assim, a polinização constitui um serviço ambiental gratuito, quando realizada por agentes naturais como o vento, a chuva, abelhas, aves e mamíferos, entre outros.

Os principais agentes polinizadores do maracujazeiro-azedo são as abelhas Xylocopa, conhecidas como mamangavas, mamangavas-de-toco, mamangabas, mamangás, mangangavas, mangangás, mangavas ou abelhas-carpinteiras. Esses animais são tão eficientes que a taxa de formação de frutos pode chegar a 65% após duas visitas à flor. Com sete visitas, a taxa de frutificação pode chegar a 80%. Esses resultados são explicados pelo fato de as mamangavas, com as suas visitas, serem capazes de transferir mais de 1.000 grãos de pólen para o estigma de uma única flor, provenientes de até 25 plantas diferentes.

Alguns produtores, todavia, preferem a polinização artificial, feita manualmente. Quando realizada de forma adequada, esse tipo de polinização possibilita, com frequência, taxas de frutificação superiores a 80%. Embora seja eficiente, esse processo requer muita atenção por parte dos trabalhadores, pois não se pode quebrar os estigmas ou transferir um número pequeno de grãos de pólen. Por ser realizada após a abertura das flores, a polinização artificial do maracujazeiro-azedo ocorre a partir do meio-dia, aproximadamente, sob temperaturas relativamente altas.

Além disso, outro fator que precisa ser cuidadosamente observado é que a polinização deve ocorrer de forma cruzada, ou seja, entre plantas diferentes, transferindo grãos de pólen de uma planta para outra. Essa situação exige a contratação de profissionais bem treinados, em número suficiente, com vestimentas e equipamentos que ofereçam proteção contra a ação do sol, da poeira, do pólen, dos resíduos químicos deixados pelos defensivos agrícolas e de possíveis contatos com animais peçonhentos, aspecto que aumenta de forma significativa os custos da produção.

Segundo estudos na área, desde que não haja o emprego indiscriminado de defensivos agrícolas na propriedade, não é necessário recorrer à polinização artificial em plantios situados próximo a áreas de mata bem conservada, locais onde as mamangavas fazem seus ninhos e coletam alimento. Desse modo, os produtores de maracujá interessados em investir na polinização natural devem seguir atentamente as instruções que aparecem nos rótulos e bulas dos defensivos, empregando somente produtos recomendados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Ao mesmo tempo, devem implementar estratégias que promovam o aumento do número de ninhos de mamangavas na propriedade. À medida que aumenta o número de ninhos, aumentam as visitas das mamangavas às flores e, consequentemente, as taxas de frutificação. Tal estratégia ajuda a reduzir custos na produção, sem prejudicar a produtividade no plantio, e evita riscos para a saúde de trabalhadores e consumidores.

A presença de um maior número de mamangavas pode auxiliar ainda na solução de outro problema enfrentado pelos produtores de maracujá: as abelhas pilhadoras, como as arapuás e as abelhas africanizadas, que retiram o pólen da flor sem realizar a sua polinização. Quanto maior o número de mamangavas visitando as flores do maracujá, menor será a presença das abelhas pilhadoras nessas flores, lembrando que o oposto também é verdadeiro: quanto menor o número de mamangavas visitando as flores do maracujá, maior será a ocorrência de abelhas pilhadoras.

Os ninhos de mamangavas podem ser obtidos de diferentes maneiras. Podem-se disponibilizar locais para nidificação como, por exemplo, espaldeiras com mourões de madeira, troncos apodrecidos e armadilhas feitas de bambu e outros materiais. Com o cuidado devido e autorização dos órgãos de fiscalização ambiental, é possível realizar, inclusive, o transporte de ninhos ativos de mamangavas de uma área para outra.

Por fim, e não menos importante, vale a pena lembrar que outros fatores, além da polinização, podem afetar a quantidade e a qualidade dos frutos do maracujazeiro, como, por exemplo, o estado nutricional e a genética da planta, as condições do solo e variáveis climáticas, além da incidência e severidade de pragas e doenças. Similar ao que ocorre com outros plantios comerciais, o cultivo de maracujazeiro-azedo requer o engajamento de indivíduos tecnicamente preparados, bem como um bom planejamento da atividade.

* Patrícia Maria Drumond - Bióloga, doutora em Ciências, pesquisadora da Embrapa Acre, Rio Branco, AC

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