Mangaba: diversidade, sabor e potencial alimentar dos frutos do Cerrado
A mangabeira é uma espécie arbórea nativa do Brasil, com ampla ocorrência nos biomas Cerrado e Caatinga, além de registros na Mata Atlântica e em países vizinhos da América do Sul
O Cerrado brasileiro abriga uma das maiores diversidades de frutos nativos do planeta, muitos dos quais permanecem subexplorados sob as perspectivas científica, tecnológica e mercadológica. Entre essas espécies destaca-se a mangaba (Hancornia speciosa Gomes), fruto emblemático que reúne atributos sensoriais marcantes, elevado valor nutricional, relevância sociocultural e expressivo potencial econômico (Silva et al., 2025). Trata-se de uma espécie adaptada a condições edafoclimáticas adversas, com elevada tolerância à seca e capacidade de desenvolvimento em solos ácidos e de baixa fertilidade, características que reforçam sua importância estratégica frente às mudanças climáticas e à busca por sistemas produtivos mais resilientes e sustentáveis (Álvares-Carvalho et al., 2022; Leite et al., 2025).
Registros históricos indicam que a mangaba já despertava interesse desde o período colonial, quando cronistas e religiosos descreviam seu aroma intenso e sabor peculiar, amplamente conhecidos e valorizados pelos povos indígenas. O próprio nome, de origem tupi, significa "coisa boa de comer", evidenciando a íntima relação entre o fruto e os saberes tradicionais. Atualmente, a mangaba é reconhecida como uma frutífera nativa muito promissora para a valorização da biodiversidade brasileira e para o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis (Silva et al., 2025; Silva Junior, 2004).
A mangabeira é uma espécie arbórea nativa do Brasil, com ampla ocorrência nos biomas Cerrado e Caatinga, além de registros na Mata Atlântica e em países vizinhos da América do Sul (Álvares-Carvalho et al., 2022). Apresenta porte médio, podendo atingir até sete metros de altura, tronco áspero, ramos lisos de coloração avermelhada e presença abundante de látex branco. As folhas são simples, opostas e coriáceas, e os frutos possuem formato oval, com coloração variando do verde-amarelado ao verde-rosado quando maduros, polpa branca, viscosa e altamente aromática, envolvendo sementes ovais e achatadas de coloração castanha (Perfeito et al., 2015).
Do ponto de vista gastronômico, a mangaba ocupa posição de destaque, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Sua polpa cremosa, de sabor agridoce e aroma intenso, é amplamente utilizada no preparo de sorvetes, picolés, shakes, mousses e sucos, produtos que apresentam elevada aceitação sensorial. Além disso, o fruto vem sendo incorporado à elaboração de bebidas fermentadas e não fermentadas, como licores, cervejas artesanais e coquetéis, ampliando sua inserção em mercados diferenciados (Santos et al., 2022; Souza Silva et al., 2025) (Figura 1).
Figura 1. Aplicações tecnológicas do fruto da mangaba (Hancornia speciosa Gomes) na elaboração de alimentos e bebidas
Nas comunidades tradicionais, particularmente entre as chamadas catadoras de mangaba, o fruto é transformado em doces, geleias, compotas, bolos e doces de corte, práticas que permitem o aproveitamento integral da safra e a geração de renda ao longo do ano. Paralelamente, a alta gastronomia tem redescoberto a mangaba como ingrediente versátil e sofisticado, sendo empregada na elaboração de sobremesas autorais, recheios para bombons finos e molhos agridoces. Essa transição do consumo popular para a gastronomia contemporânea reforça o potencial do fruto como elemento de identidade culinária brasileira (Almeida et al., 2022; Leite et al., 2025).
No contexto produtivo, o fruto da mangabeira pode ser colhido ainda verde, diretamente da planta, ou coletado após a queda natural ao solo, estágio associado à maturação fisiológica completa. Independentemente da forma de colheita, o manejo pós-colheita demanda atenção especial, uma vez que a mangaba apresenta elevada fragilidade física, com casca fina e polpa sensível, tornando-se altamente suscetível a danos mecânicos, escurecimento e início precoce de processos de deterioração (Perfeito et al., 2015). Assim, práticas adequadas de colheita, transporte, armazenamento e processamento são determinantes para a manutenção da qualidade sensorial, nutricional e do valor comercial do fruto.
Sob a ótica econômica, a mangaba apresenta crescente valorização no mercado, impulsionada pela demanda por alimentos naturais, funcionais e de origem sustentável (Silva et al., 2025). A comercialização ocorre em feiras livres, mercados regionais, redes varejistas e plataformas digitais, abrangendo desde o fruto in natura até polpas congeladas e produtos processados. Os valores variam conforme a forma de apresentação, a sazonalidade e a região, evidenciando o potencial de rentabilidade da cadeia produtiva e sua importância para a economia local e regional.
A mangabeira apresenta elevado teor de látex em seus tecidos, característica que desperta interesse para aplicações industriais e que representa um potencial ainda pouco explorado da espécie (Leite et al., 2025). Embora atualmente o principal valor agregado da mangaba esteja associado à polpa do fruto, o látex configura-se como um recurso biológico de interesse, passível de investigação científica e tecnológica para usos alternativos, desde que associado a estratégias ambientalmente sustentáveis.
Do ponto de vista nutricional e funcional, a mangaba destaca-se como fonte relevante de vitamina C, compostos fenólicos, flavonoides e antioxidantes naturais, além de minerais essenciais (Almeida et al., 2022). Entre os compostos bioativos identificados, destacam-se a rutina, associada à proteção cardiovascular e à integridade dos vasos sanguíneos, e o ácido clorogênico, relacionado à modulação do metabolismo da glicose, ação anti-inflamatória e potencial redução do risco de doenças crônicas não transmissíveis.
Estudos recentes também demonstraram elevada atividade antioxidante da polpa e dos extratos, indicando aplicações promissoras na formulação de alimentos funcionais, nutracêuticos e ingredientes naturais para as indústrias alimentícia e farmacêutica (Carvalho et al., 2022; Santos et al., 2022).
Figura 1. Aplicações tecnológicas do fruto da mangaba (Hancornia speciosa Gomes) na elaboração de alimentos e bebidas
Apesar da relevância, a mangaba enfrenta sérios desafios relacionados à conservação. A expansão agrícola, a urbanização e o extrativismo predatório têm reduzido significativamente as áreas nativas, com registros de grandes perdas de biodiversidade (Silva et al., 2025). A conservação da espécie é ainda mais complexa devido à natureza recalcitrante de suas sementes, que não toleram dessecação nem armazenamento em baixas temperaturas, dificultando sua preservação em bancos de sementes convencionais (Souza, 2021).
Nesse cenário, a biotecnologia tem desempenhado papel fundamental na conservação e no uso sustentável da mangabeira. Técnicas de cultura de tecidos vegetais, micropropagação e produção de mudas in vitro vêm sendo aprimoradas, permitindo a obtenção de plantas sadias em larga escala, com maior uniformidade genética e redução do tempo de produção (Pires et al., 2022). Avanços recentes também incluem estudos sobre enraizamento, aclimatização e protocolos de conservação in vitro, configurando ferramentas estratégicas para a restauração de áreas degradadas e o fortalecimento da cadeia produtiva da mangaba (Lima et al., 2020).
Dessa forma, a mangaba consolida-se como símbolo da biodiversidade do Cerrado, reunindo tradição, inovação, valor nutricional e potencial econômico. Investir em pesquisa, conservação e desenvolvimento tecnológico dessa espécie representa não apenas a preservação de um patrimônio natural e cultural, mas também a promoção de um modelo de desenvolvimento sustentável capaz de integrar comunidades tradicionais, ciência e mercado.
*Autores: Isabella Beatriz Nunes Menezes; Loham Henrique Thales Costa Oliveira; Nayara Helen Chagas Teixeira; Luciana Arantes Dantas; Lucas Loram Lourenço; Fabia Barbosa da Silva; Marco Antônio Pereira da Silva; Fabiano Guimarães Silva; Paula Sperotto Alberto Faria/Doutora em Biotecnologia e Biodiversidade - Universidade Federal de Goiás/Mestre em Ciências Agrárias/IF Goiano/Bióloga/IF Goiano - [email protected]
Agradecimentos: À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e IF Goiano - Campus Rio Verde pelo apoio financeiro à realização da pesquisa.
Referências: ALMEIDA, F. L. C. et al. Hancornia speciosa: An overview focused on phytochemical properties, recent achievements, applications, and future perspectives. International Journal of Gastronomy and Food Science, v. 29, p. 100561, 2022. ÁLVARES-CARVALHO, S. V. et al. Biodiversity hotspots for conservation of Hancornia speciosa Gomes. Genetic Resources and Crop Evolution, v. 69, n. 6, p. 2179-2189, 2022. SILVA, A. V. C. et al. Conservation of the genetic resources of mangaba, genipap, and guavaberry, native fruit species, of the Northeastern region of Brazil. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 60, p. e04128, 2025. CARVALHO, A. P. A. et al. Health benefits of phytochemicals from Brazilian native foods and plants: Antioxidant, antimicrobial, anti-cancer, and risk factors of metabolic/endocrine disorders control. Trends in Food Science & Technology, v. 111, p. 534-548, 2021. SOUZA SILVA, E. et al. Dinâmica socioambiental na reserva de desenvolvimento sustentável (RDS) campo das mangabas. Caderno Pedagógico, v. 22, n. 11, p. e20176-e20176, 2025. LEITE, Sérgio P. et al. Scientific and Technical Insights into Hancornia speciosa Gomes for Biotechnological Applications. Compounds, v. 5, n. 4, p. 38, 2025. LIMA, I. M. de O.; SALLES, J. S.; COSTA, E.; et al. Quality and growth of mangaba (Hancornia speciosa) seedlings according to the substrate and shading. Australian Journal of Crop Science, v. 14, n. 3, p. 531-536, 2020. PERFEITO, D. G. A. et al. Caracterização de frutos de mangabas (Hancornia speciosa Gomes) e estudo de processos de extração da polpa. Revista de Agricultura Neotropical, v. 2, n. 3, p. 1-7, 2015. PIRES, D. C. M. et al. In vitro conservation of mangaba (Hancornia speciosa Gomes): An important fruit tree of Brazilian Cerrado. Australian Journal of Crop Science, v. 16, n. 9, p. 1084-1093, 2022. SANTOS, R. S. et al. Bioactive compounds and hepatoprotective effect of Hancornia speciosa Gomes fruit juice on acetaminophen-induced hepatotoxicity in vivo. Natural Product Research, v. 36, n. 10, p. 2565-2569, 2022. SILVA JUNIOR, J. F. A cultura da mangaba. Revista Brasileira de Fruticultura, v. 26,2004.
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